sábado, 30 de agosto de 2014

O SONHO DE MAURO

Mauro entrou no apartamento na hora de sempre, parou em frente à mulher, fez uma pequena pausa e falou, quase soluçando:

– Perdi meu sonho, Ná.

- Mas como, Mauro? 


Ná não conseguiu disfarçar a aflição, e ouviu como sua própria voz saiu trêmula ao fazer a pergunta, afinal Mauro carregava este sonho fazia tantos anos, e apesar de ser um sonho passado, e não um sonho futuro, como a maioria das pessoas costumava levar consigo nestes tempos, o marido tinha muito cuidado com ele. Era zeloso com seu sonho, Mauro.

Os amigos brincavam com ele pelo fato de seu sonho ser um sonho passado, mas o admiravam e respeitavam suas estranhezas, que certamente havia herdado do pai, assim como a casa azul e as traquitanas de inventor.

Eles pressentiam que Mauro talvez ainda preservasse intacto o que há muito haviam perdido. Ná lembrou o dia em que ali, naquela sala, naquela mesa, Negro Paulo, depois de um largo gole de vinho, sentenciou com voz grave:

- Quando todos tivermos perdido o prumo, ainda teremos o Mauro pra nos trazer de volta. Pércio e Fla, que ouviam com deboche as bobagens do Negro, neste momento fizeram um silêncio consentido e dirigiram um olhar sorridente e carinhoso a Mauro.

- Não sei, Ná. Havia muito movimento no centro hoje. No momento de sair do trem fiquei nervoso com tanta gente e tanto soldado que havia. Lembro de que esbarrei numa moça e talvez tenha sido ali, naquele momento, que o sonho possa ter caído. Fiz um movimento brusco porque fiquei com medo de machucá-la. Era uma moça magrinha, muito frágil. Ou foi, quem sabe, na hora do almoço quando busquei outro lugar para comer. Não sei por que fiz isto de almoçar em outro lugar. Não sei. Hoje as coisas estão em desordem dentro de minha cabeça desde quando acordei e foi agora, quando tirei as chaves para entrar em casa , que senti que o sonho já não estava mais comigo.

Ná ouviu pensativa. Mauro não sabia sonhar outro sonho e já fazia algum tempo que eram só os dois no apartamento. Não havia a quem pedir uma opinião ou uma palavra de conforto pois desde a proibição da Grande Rede e o Crack Telefônico a comunicação com os filhos e amigos andava irregular. Estavam todos na resistência do Baixo Amazonas, havia vários meses e nada de notícias. Então agora, eram só Mauro e ela. E o sonho perdido. Ná passou a mão no rosto de Mauro e ele sentiu a profunda inquietação do olhar dela.

- E agora, Mauro?
- Agora não sei. Não quero pensar agora. Estou muito cansado, Ná. Vou deixar para pensar isto amanhã, se o sol der as caras.

Naquela noite jantaram em silêncio. Ná, de quando em quando, levantava os olhos do prato, e fitava Mauro que comia e assistia televisão com um vago desinteresse.

Apesar do que acontecera, Mauro não parecia abatido. Sim, se mostrava cansado, mas tinha um brilho no olhar que há muito a mulher não via. O brilho que tinha quando se conheceram no verão de 23. A mulher acompanhou com o olhar os movimentos lentos de Mauro quando ele deixou a mesa depois de comer e tomou a direção do corredor. Ela sabia que ele iria até a “sala da contemplação”, que era como ele gostava de chamar o pequeno quarto que antes servia ao filho mais novo. E como este também se havia ido, Mauro ali instalou uma boa mesa para fazer seus desenhos e também uma biblioteca farta.

Ná ouviu o ruído do interruptor da luz de cima e logo o da luzinha de mesa. O marido gostava de tudo muito iluminado. Sempre fora assim. “Mauro incandescente” foi o apelido inventado por ela mesma. E, por fim, adivinhou que Mauro sentava à mesa e talvez rabiscasse qualquer coisa nos grandes papeis, mas Mauro se acomodou na cadeira que tinha sido desenhada pelo pai e não tocou no carvão ou no lápis macio. Respirando pausadamente se pôs a olhar para o teto branco, como se dali pudesse vir algum sinal, alguma resposta.

Gostava tanto de seu sonho, pensou. A casa azul, ampla e ensolarada, o quintal que se estendia até quase a montanha, com um mato denso, cheio de caminhos sinuosos onde não faltavam frutas frescas e mistérios que ele e depois seus filhos tentaram tantas vezes decifrar. O ruído das crianças era do tamanho do mundo. Eram muitas e vinham de toda parte brincar na casa azul.

Faziam isso até a última gota de sol e quando se iam levavam no rosto a expressão de quem tem a alma completa. No dia seguinte estavam ali, novamente, como os pombos das praças, famintos do alimento que lhes dava aquela atmosfera silenciosa e pura.

Na casa azul os pássaros entravam nos cômodos e, estáticos como esculturas, davam a breve impressão de que o tempo se negava a avançar. Era este o sonho de Mauro. O anacrônico sonho passado de Mauro.

Mauro baixou os olhos sobre a prancha, onde descansava o desenho iniciado na noite anterior, pois lhe chamaram a atenção as cores que havia utilizado, tão diversas das habituais e foi com assombro e incredulidade que ali, no canto da mesa, num vão entre livros empoeirados e pinceis sujos, Mauro viu seu sonho. Ali, a seu alcance. Não o havia perdido e sim esquecido, como uma chave, telefone, carteira ou qualquer outra coisa que se esquece e pode ser esquecida.

Mauro lentamente estendeu o braço em direção a ele ao mesmo tempo em que sua alma foi se enchendo de clareza e entendimento. Já não mais necessitaria do seu sonho. Agora Mauro o sujeitava entre as mãos com um cuidado agradecido, sentindo sua textura e peso tão familiares, e o mirava com olhos de uma criança pequena que acabou de descobrir os próprios pés.

Sem duvidar nem por um momento do gesto que viria, Mauro abriu a gaveta mais próxima e o depositou delicadamente entre uma caixinha de parafusos e uma lanterna velha. Fechou a gaveta, imerso que já estava no imenso cansaço daquele dia e na profunda paz que agora lhe rodeava e se recostou na cadeira buscando uma posição melhor para se deixar levar pelo que sentia se aproximar como uma onda de um mar agitado, decidido e justo.

Ná veio até a porta do quarto para chamar Mauro para assistir à TV e quem sabe afastá-lo um pouco dos possíveis maus pensamentos e devaneios, mas o encontrou adormecido com um sorriso nos lábios. Foi com os olhos marejados que a mulher foi até o quarto e retornou trazendo uma boa colcha já que maio estava aí com seus ares traiçoeiros e com a chegada das novas marés nunca se sabia o quanto podia baixar a temperatura durante a noite.

Entrou no cômodo e cobriu Mauro cuidadosamente. Na ponta dos pés deu meia volta em direção à porta, e depois de desligar a luz de cima sem fazer ruído, ficou observando dali seu marido envolto na penumbra que a luzinha equilibrava . Como Mauro é bonito quando sonha, pensou a mulher.

Mauro neste momento estava conhecendo as cores de seu novo sonho. Os tons eram enérgicos e se pareciam aos do desenho que estava sobre a prancha. Negros e pratas brilhantes, misturados a rajadas de um vermelho muito vivo. Em nada lembrava a casa azul. Neste sonho, neste seu novo sonho, Mauro bramia espadas e os inimigos não eram poucos, mas ele lutava com a alegria de uma raiva que foi por fim liberta. E Mauro não tinha medo.

Fernando Corona – 2013



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O 5

          A estação estava lotada nesta manhã fria e ele, irritado, consultava o relógio, calculando o tamanho de seu atraso para mais uma reunião sem nenhum propósito, e no meio daquela multidão ensandecida, o único pensamento que lhe dava colorido à alma era a lembrança daquela mulher tão bonita que vez por outra jogava o olhar no seu, sem lhe dar certeza de nada, pois era sempre uma mirada assustadiça, mas o indício era promissor o bastante para que houvesse jurado a si mesmo que se a encontrasse novamente naquele vagão de número 5, iria falar com ela, iria lhe perguntar seu nome, lhe diria o seu, e se atiraria ao abismo, confessando sua imensa vontade de conhece-la e que isto já fazia muito tempo.

          Estas cores se turvaram um pouco logo em seguida, pois recordou  que havia perdido sua grande chance quando ela sorriu para ele naquela última tarde de sexta feira. Naquele momento faltou-lhe a devida coragem, e duas paradas depois ele a viu descer graciosamente do trem. Só lhe restou suspirar e acompanhar através do vidro, passo a passo, o caminhar leve da moça, que não olhou para trás e claro que não o faria pois aos covardes a vida não estende tão fabulosos prêmios.

       
          A aproximação do trem lhe trouxe de volta ao mundo incolor, quando reparou que tolamente não havia buscado uma boa posição para competir com aquela gente toda que preparava a invasão dos vagões. Temeu não lograr seu intento e isso o faria chegar ainda mais tarde à firma, e qualquer olhar de crítica que recebesse poderia ser a gota que faltava, então era bom rosnar no íntimo e lutar com bravura para garantir seu lugar e quando as portas se abriram teve o cuidado de não machucar fêmeas, mas empurrou e peitou machos e foi também pisoteado e empurrado para dentro do 5 que já chegara quase cheio e agora recebia mais uma dose de gente trôpega e ansiosa.

          
As portas se fecharam, a composição se pôs em movimento e as pessoas ainda se acotovelavam, buscando posições mais dignas e cômodas, quando ele conseguiu, com esforço e cuidado, passar por entre dois brutamontes e conquistar o seu espaço onde pôde se amparar nos ferros, e assim seguir viagem para quem sabe soltar novamente os pensamentos, mas viu com assombro que isto seria desnecessário, porque ali estava ela, à sua frente, olhando fixamente para ele, e 30 centímetros era distância mais do que perfeita para ele apreciar todos os detalhes daquele rosto. Agora, era só uma questão de respirar fundo para  recuperar-se do susto e tentar dizer alguma coisa. 

          Seus nervos lhe fizeram rir de forma quase exagerada, o que fez a moça desviar o olhar, mas ele logo se recompôs e então suas palavras foram saindo sem esforço, num volume baixo e cadenciado, como uma reza, e desta forma, foi explanando com clareza tudo o que estivera pensando sobre ela, que agora focava a atenção nele novamente com uns olhos que eram dois sóis de outono e quando aquele texto quase ensaiado chegou ao fim, a resposta dela foi apenas o silêncio, um silêncio de vertigem que o deixou de pernas bambas e um calor no rosto que foi se tornando insuportável, afinal não havia para onde fugir, não havia espaço, e lhe passou pela cabeça que ela pudesse ser estrangeira, ou muda, ou uma mulher perversa e arrogante, mas ela se aproximou um pouco, como quem vai contar um segredo, logo interrompendo este gesto, porque neste exato momento o trem parou na estação do Pontal, quando as portas se abriram e mais pessoas entraram no 5, como se isto ainda fosse possível.

           A pressão do povo fez com que a distância entre os dois diminuísse ainda mais e seus corpos se tocaram e ele pôde aspirar aqueles ares de shampoo misturados a um perfume que era exatamente raro como ele imaginara ser e pensou que seria bom que ela também gostasse do seu cheiro, que por sorte havia caprichado na lavanda fresca pois estava obrigado a fazer um bom papel na reunião da firma que agora se tornava apenas uma vaga e péssima lembrança, já que a vontade que lhe invadia neste momento era a de que esta viagem nunca mais terminasse, e então ele a mirou com um gesto tão indagativo, que a moça, com um olhar de pura súplica, sussurrou num tom de confissão: Tenho medo. Ele perguntou o porquê e ela respondeu que era por haver muita gente no 5 e isto a sufocava e ele quis saber se ela não gostaria de descer na próxima parada e ela respondeu que não podia, que estava atrasada e ele sentiu o corpo dela tremer, e experimentou um imenso amor por este momento ao recordar, sem saber por que razão, de uma brincadeira que, quando bem pequeno, fazia com sua mãe, e olhando ternamente para a moça, fez um cuidadoso movimento ao levar o braço esquerdo em direção ao próprio ombro direito e dando duas leves batidinhas na lapela falou baixinho: Esconde aqui.

          Ele próprio ficou surpreso com seu gesto, mais estúpido do que corajoso, mas quando ela se aconchegou no seu ombro e o abraçou com uma das mãos, ele sentiu o coração latejando nas têmporas, e ao enlaça-la pela cintura pôde sentir a firme delicadeza daquele corpo trêmulo que agora se colava ao seu e arfava, lhe transmitindo uma quentura que era algo que ele jamais poderia imaginar existir, junto à clara sensação de que aquilo tudo era simplesmente um reencontro após séculos de doída separação e por isso adivinhou que o que escorria por seu pescoço, já molhando seu peito, eram lágrimas que vertiam dos olhos dela que o abraçou mais forte entre soluços surdos e ele não hesitou em puxa-la mais para si e encostar seu sexo no dela e ela respondeu que sim, com um movimento de cintura que tornou o contato mais justo e suas bocas e línguas se procuraram e era pura insanidade este mundo que repentinamente se transfigurava num imenso silêncio de câmera lenta e esta entrega de corpos famintos exalou por todo o 5 um cheiro de flor e mar que fez com que todos os passageiros deixassem de lado pensamentos, conversas, telefonemas e angústias para se entregarem àquela nova e fresca atmosfera que agora estava repleta de antigas imagens e cenas passadas que transluziam e cintilavam como flashes sobre suas cabeças até o momento deste breve transe ser interrompido pela chegada do trem à estação central de Villas, quando as portas se abriram ruidosamente e as pessoas passaram a abandonar o vagão com vagar, pois algo ainda as atraía a ficar sorvendo o ar mágico que emanava daquele casal que continuava em sua volúpia em meio à cabine, sob os olhares sorridentes dos poucos passageiros que haviam ficado para seguir viagem, quando então separaram seus corpos para poderem ler o que diziam seus olhos e descobriram que não havia dúvida de que tudo aquilo havia sido escrito numa pedra jogada em algum remoto rio.

          As portas do vagão já se fechavam, quando ele, num movimento rápido, se atirou a elas, forçando com o corpo que se abrissem novamente, e seguido a isto estendeu a mão em direção à moça que não hesitou em segura-la e os dois deixaram o vagão, entre risadas e afagos, e já tomavam apressados o caminho das escadas quando uma certeza lhes tomou, a certeza de que esta cena não se repetiria, e num gesto único e sincronizado, voltaram seus rostos para assistirem ao trem aumentar sua velocidade deixando a gare, pois queriam fixar em suas retinas para sempre, a imagem do 5. O vagão de número 5.

       
          Fernando Corona – 2013 – RJ



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

OS QUE JÁ SE FORAM

Já faz algum tempo, criei uma página no FB e batizei de “As frases dos caras”. Pego frases de filósofos, artistas, humoristas, algumas piadas, umas bobagens que invento, me divirto fazendo uma arte rápida no Photoshop, junto e colo tudo, criando assim o que chamo de tabuleta.

Então posto. A página tem vários likes, muito menos que a página dos Minions Sinceros que tem mais de um milhão, apesar de ter apenas três meses de vida. Natural, afinal de contas, Minions são muito mais interessantes do que Platão ou Millôr.

Dia destes fiz uma tabuleta com aquele fundo azul e o símbolo do FB que dizia assim;

Bloqueei os que só postam flor,

depois, os que só postam bichinho,

depois, os que só jogam indireta,

depois, as eternas amarguradas.

Depois bloqueei os que erram o cedilha,

os que só postam frases queridas,

os que só mandam autoajuda,

os que fotografam comida,

as que se fotografam em frente ao espelho

e aqueles que sempre comunicam onde estão.

Depois bloqueei aqueles que avisam que vão dormir,

aqueles que citam salmos e

aqueles que só reclamam.

Quando vi, sobrou só uma meia dúzia de três ou quatro que não posta nada faz mais de ano.


Uma amiga gostou e inseriu em seu comentário um “kkk” e a seguinte pergunta: Que foi? Morreram? A piada dela é engraçada, já que a tabuleta é uma brincadeira mesmo, mas também fiquei pensando que isto é só mais uma verdade.

Já tenho ou tinha, isto não sei bem, alguns amigos facebookianos que se foram. Alguns mais próximos, outros nem tanto. Mas os perfis geralmente continuam no ar, às vezes geridos por alguém querido, às vezes não, e então neste caso logo me vem a imagem de uma nave já não tripulada que ficará a vagar eternamente pelo tempo.

É interessante imaginar que dentre as mil caras que possui, o Facebook também possa servir como uma espécie de lápide, onde as pessoas, com um clic, têm a possibilidade de ver fotos e posts,  lembrar diálogos e fatos acontecidos, e de alguma forma, amainar as saudades daqueles que já não estão mais por aqui. Uma lápide, onde se possa depositar flores virtuais. Quem sabe até rezar...



Fernando Corona – 2013



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terça-feira, 26 de agosto de 2014

MEU PRIMEIRO CONTATO COM A VIOLÊNCIA NO RJ


Agora já posso contar, porque já passou, já foi e já não me marca, mas faz algum tempo estava indo na direção de um estúdio no bairro de Laranjeiras e isto era lá pelas 10 da manhã e no momento em que fui cruzar a via que leva o mesmo nome do bairro, vi que do outro lado da rua havia uma confusão. 3 caras grandes prensavam um baixinho contra a parede.

O sinal abriu para os carros e pude ver o primeiro tapa dado na cara do homem pequeno. Pensei; Vou me meter. Mas acontece que estava indo fazer um trabalho importante e já estava um tanto atrasado. Fiquei parado, olhando a cena.

Os sinais no Rio de Janeiro levam uma eternidade pra fechar e quando vi que os socos começaram a ser despejados na cabeça do carinha pensei em atravessar no meio dos carros mas logo freei meu ímpeto. Se você for atropelado aqui, ninguém dá a mínima. Conheci um cara que foi colhido na Presidente Vargas e em meia hora desapareceu no asfalto. Só ficaram uns pedaços do sapato e das cuecas no meio da avenida. A família economizou enterro.

Então fiquei frio, observando as pessoas passarem pela briga sem dar bola pra aquilo que estava acontecendo. Esta frieza que tem as cidades grandes, você sabe como é.

Eu também não podia me meter. Tava de banho tomado e concentrado pra gravação que iria fazer, mas vi que os grandões já estavam se servindo no baixinho e eu ali ansioso pra que o sinal fechasse logo.

Quando fechou, vi que o homenzinho conseguiu se livrar dos 3 e saiu correndo, mas um deles, habilmente lhe deu um passa pé, fazendo com que ele caísse de cara no chão e seguido a isto passaram a lhe chutar o cérebro brutalmente, e eu vendo aquilo não me contive, pois subiu o sangue. Atravessei a rua correndo e me meti na confusão. Olha só! Você, que agora deve estar lendo este relato, e certamente está tomado pela aflição. Você não pode imaginar como batemos, mas como batemos nesse baixinho!!!

Fernando Corona - 7/2014 - RJ

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sábado, 23 de agosto de 2014

CARÓTIDAS

Era um exame para investigar minhas carótidas, um scan ou algo assim, não havia mais ninguém na sala de espera e isto era de se admirar e também não esperei tanto tempo como costuma acontecer, então uma porta se abriu e uma mulher de jaleco branco proferiu meu nome em voz baixa e me convidou a entrar, e no instante em que entrei e a porta foi novamente fechada, se fez o melhor silêncio que já tinha escutado em toda minha vida.


Ali, exatamente no epicentro da ensandecida cidade do Rio de Janeiro, havia uma pequena sala completamente vedada, onde se podia ouvir até nossas respirações, que ao se cruzarem, criavam um interessante descompasso, e a mulher, que certamente seria a médica, pediu que eu me sentasse e começou então com as perguntas de praxe, nome, endereço, causa do exame, estas coisas que são tão importantes para se preencher fichas, e sua voz era serena e tranqüilizadora.


Era uma mulher de estranhas feições, teria 40 ou pouco mais, de olhos claros e bondosos, com o nariz um pouquinho exagerado em seu cumprimento, mas talvez fosse isto que lhe conferisse uma beleza rara e egípcia e durante este pequeno questionário nossos olhares foram inventando novos códigos, nosso diálogo de frases curtas tinha tonalidades divertidas e soava quase caricato. Palavras frias como diabetes, medicação e colesterol adquiriam outros sentidos e flutuavam pelo ar como borboletas bêbadas e experimentei um profundo bem estar no momento em que tirei a camisa e deitei-me na maca, pois a temperatura era justa naquela saleta completamente desprovida de quadros ou cartazes médicos. Pude reparar na cor creme que tinham as paredes e na qualidade daquela luz alcatroada que nascia de um simples e pequeno abajur que dava àquele ambiente uns ares de igreja sem santos ou a indecifrável paz que têm as salas de aula em pleno janeiro, e senti brevemente o frio do gel no meu pescoço  e fiquei atento às palavras da doutora que cortavam gentilmente a penumbra dando início ao exame de minhas já antigas veias e foi neste momento que não tive dúvidas de que poderia ficar ali por 20 anos, ouvindo a voz terna daquela mulher que investigava meu corpo com cuidado, de olhos fixos em um monitor, murmurando pequenos sinais de aprovação, afinal minha aorta se revelava limpa, não havia qualquer indício de obstrução, e pude observar detalhadamente seu perfil e nesta época eu ainda não obedecia ao que meu coração mandava, então só me restou contemplar em silêncio aquele rosto de esfinge que naquele momento estava tão imerso em seu trabalho e não me fitava e isto só aconteceu depois, quando ela deu por terminado o procedimento e nossos olhares por fim se encostaram e pude ler que ela entendia muito bem o que meu silêncio dizia, e dois segundos desta mirada foram o bastante para que corássemos juntos e depois disto posso jurar que houve um lapso em minha memória, pois não lembro do momento de sair nem de como nos despedimos, apenas guardo que logo em seguida minha alma vibrava pela Rio Branco e era um fim de tarde glorioso de verão, e caminhando por entre gentes, pensei que poderia tê-la convidado para um chope, e por que não?, ela aceitaria e seguramente nos casaríamos, mas alguém, que não recordo o nome, disse certa feita, que quando nos casamos chega ao fim a poesia e começa a história, e talvez a lembrança desta frase me conforte até hoje, quando me contento apenas em carregar comigo, através dos tempos, esta pequena pedra não lapidada, e a levarei, quem sabe, até meu último dia, até o momento exato em que meu sangue obstrua para sempre minhas carótidas.

Fernando Corona – agosto 2014






sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O VESTIDINHO

Tenho de ir ao banco e vou a pé. O dia é de um suave brilho de outono, o que contrasta um pouco com esta gente que caminha alvoroçada pela rua do Catete. Vou no ritmo que o sol manda, nem mais, nem menos, quando vejo passar por mim uma linda de vestidinho. Linda é pouco. Uma deusinha em forma de pessoa. 

Então não faz mal nenhum ir atrás dela um pouquinho só, já que o banco fica na mesma direção e assim vou observando atentamente aquele vestido esvoaçar pedaços de pernas na brisa que sopra e o caminhar elegante e simples que ela tem, o balanço perfeito, mas não se engane, não se trata de uma voluptuosidade carioca, uma popozuda, nada disto.  É mais uma languidez delicada, uma fada de bronze que flutua. Cheguei a ver num relance seu perfil de olhar inseguro, daqueles que pedem proteção e dá vontade na gente de cuidar. Um poema que caminha. É assim que defino esta gazelinha assustadiça que teimo em perseguir pelo Flamengo porque quero ver ainda alguns detalhes e noto que já passei do banco, mas não dá nada, só mais uma quadra quem sabe, e então quando cruzamos a travessa, o sol enviesado que já vai se pôr atrás dos morros corta o tecido e revela um pouco da forma das curvas que se revelam fantásticas e vou no rastro destas sandálias que combinam com todo o resto por sua leveza e as panturrilhas contraem-se com exatidão a cada passo, a cada decidido passo que mostra uma musculatura fresca e morena e reparo no braço que não segura a bolsa, o braço solto que é jogado para trás sem nenhuma arrogância, perfeito braço que faz adivinhar a coxa, e a pequena tatuagem nas costas sob o cabelo curto e molhado que me faz imaginar perfumes e agora só faltam os pés, é necessário encurtar  distâncias para saber exatamente o formato e a cor das unhas, características que revelam tanto sobre uma mulher, mas subitamente ela estanca e quase bato de cara contra a cabeça dela. Assustado, escuto sua voz de um tom irritado.

- Este cara tá me seguindo.

Na frente dela um edifício. Um gigante de mais de 1,90, destes ogros de academia, o braço mais grosso que minha coxa.

- Tu tá seguindo minha gata, mané?

- Hrgh....to fim, mav é por cauva do veftidinho.

- Quê??? 


Já armando o soco. Me contraio todo pra receber a porrada, mas consigo responder com voz meiga.

- Fabe o que é? Fuper goftei do padrão.

- Que padrão???

- O padrão, o feitio, mega amei êfe veftidinho. Queria faber onde ela comprou, pra eu poder comprar um pra mim.

- Ah, tu é uma bixa escrota! Vaza daqui.

Ela se interpõe e afasta o braço do namorado que me segura com brutalidade pela gola.

- Deixa ele, amor.

Com um olhar penalizado se dirige a mim com uma vozinha de anjo que me dá vontade de me declarar agorinha mesmo, mas se faço isto vou apanhar todo dia que este cara me encontrar.

- Moço, eu ganhei este vestido de uma amiga.

- Ai, que peninha.


Reforço a cena de minha decepção raspando o pé no chão e colocando o dedo na boca. Então ela continua animada:

- Posso perguntar pra minha amiga onde ela comprou, e se você me procurar no Facebook posso te dar a informação.

- Ai, linda, vofê é muito gentil. Qual é o teu Feife?

- Renata Maria Solér.

Meu Deus do céu! - penso cá comigo - nome de deusa também. O grandão fica assistindo com olhos burros ao nosso insólito diálogo.

- Renata Maria Folér, não pófo efquefer.

Ponho a mão no rosto, cobrindo os olhos, numa pose de memorizador, e assim consigo ver os pés dela que são verdadeiras relíquias do Senhor.

- Ai, que legal Renata, fua linda, obrigado caval. Feuf lindof. Fuper valeu. Vou néfa. Tchau tchau.

Dou meia volta, que esta foi por pouco. Quase levo um murro no meio da lata. Ainda morro por causa disto, mas agora é hora de ir ao banco que já tá quase fechando, pagar contas e estas coisas chatas, então caminho apressado, mas vou sonhando. Será que ela lê entrelinhas, sub textos e olhares? Fico repetindo o nome só nos lábios, sem voz, que é pra não esquecer.

Renata Maria Solér. Ah... que linda sonoridade! Não é não?



Fernando Corona





segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ANA & CIA - Criado a partir de um relato de Cléo de Paris


Cléo usou as melhores palavras para explicar a Ana o que tinha acontecido com o Tio Zé, e a menina, do alto dos seus 7 anos, respondeu que sim, que entendia, que queria ir ao velório como todas as outras pessoas, queria se despedir daquele tio tão raro, que tinha vivido em outros lados do mundo e pintava quadros coloridos e que havia dado a ela uma telinha com aquele gato vermelho que sua mãe havia pendurado bem no centro da parede e Ana sempre podia vê-lo de sua cama e ficava muito impressionada com o tamanho dos bigodes de Flim, que era como ela o havia apelidado.

No dia seguinte, quando Ana se aproximou do caixão levando nas mãos a Pantera cor de rosa e o Sapo de pelúcia, tia Carmen lhe dirigiu um sorriso e falou.
 

-Ana, vejo que você trouxe seus bichinhos.
-É sim, tia Carmen, eu trouxe eles pra ajudarem a rezar.
 

Momentos depois, enquanto homens concentrados depositavam o ataúde na gaveta e o silêncio chegou a seu ponto máximo, todos puderam ouvir claramente a voz de Ana.
 

- Tchau, Tio Zé! Até quando eu morrer!
 

Na volta para casa, Ana, a Pantera e o Sapo observavam o céu através do vidro do carro. Havia muitas nuvens, eram muito brancas e moviam-se com ligeireza e quando o sinal fechou, a menina teve a impressão de que uma delas tinha tomado a forma da cara do tio Zé. Já ia dizer alguma coisa, mas também lhe chamou a atenção que, da calçada, um menino olhava fixamente para ela com um sorriso de menino lindo e quando o carro pôs-se em movimento ele botou a língua para ela. Então Ana voltou-se para trás e de joelhos no banco pode ver pelo vidro traseiro o menino se afastando, se afastando e acenando. Era um sol de primavera que havia lá fora e este sol celebrava a vida esplendidamente. Dentro do carro, apenas breves e graves murmúrios. E uma Pantera que abraçava um sapo.

Fernando Corona - RJ - 2013



domingo, 17 de agosto de 2014

O JOTA




Encontro o Jota na avenida. Tem uma tala na mão direita e na outra leva uma bolinha de borracha verde.
- Fala, Jota!
- Beleza, irmão?
- Tudo.

Jota e eu temos particularidades parecidas. Falamos pouco e nunca sorrimos. Somos pessoas sérias. Aponto pro braço e pergunto.

- E esta parada aí?
- Ah, sabe o que é? Tô pegando uma mina legal, lá da academia. Daí tenho levado ela pro escritório, nas tardes.
- E?
- Ela pede pra eu apertar a panturrilha dela.
- Sério?
- Humhum.
- Ela gosta?
- Adora.
- E tu aperta?
- Aperto.
- Com força?
- Muita, meu.
- E aí?
- Aí é tendinite, mano.
- Caraca. E esta bolinha verde, pra que?
- Vou encontrar ela hoje. Tô fortalecendo um pouco a esquerda. Minha esquerda não dá pressão.
- Já experimentou ajudar com o joelho?
- Já. Já botei os dois joelhos em cima da perna dela e todo peso.
- E ela?
- Diz que é pouco. Quer mais forte. Fica braba e grita. Chega a dar medo, véio. A advogada do 401 até já reclamou.
- Putz. É que você é magro, não tem muito peso.
- Pois é. Acabei de ir numa loja ver o preço dum colete de chumbo. Pode ser que ajude.
- Hum.
- É massa! 30 quilos.
- Talvez adiante. Já pensou em colocar alguém na garupa? Pra aumentar bem o peso?
- Hum. Não pensei não.
- Se precisar, tô na área.
- Não sei se ela vai gostar dessa parada, mano.
- Liga pra ela. Qualquer coisa me dá um toque.
- Já é.
- Vou nessa, Jota.
- Abraço, brother.

Fernando Corona - RJ - 2014




sábado, 16 de agosto de 2014

OS FIOS DA NUVEM





     A meu lado um homem dorme. Este homem é meu, mas não me acompanha porque dorme, e nem poderia, pois esta insônia é só minha. 
     
     Não posso nem devo dividi-la com este homem que dorme, pois a causa de não conseguir dormir nem eu mesma conheço bem. É um desassossego que tem me levado pelas madrugadas tão escuras deste quarto, mas não me queixo. Até devo confessar que espero o dia inteiro por este momento em que escuto a respiração do meu homem finalmente cadenciar. E aí então, é como se me jogasse numa piscina sem bordas, onde infindáveis e pequenas correntezas me afagam, ao mesmo tempo que me dilaceram. Poderia despertar este homem que é meu, nestes momentos de delírio, e ele certamente me daria sexo, e o sexo que ele me dá é bastante bom, mas não quero. Isto que tenho sentido na escuridão é mais do que sexo, mais do que paixão e é até mesmo, mais do que o nobre e consagrado sentimento chamado amor. Não consigo dar um nome, achar uma cor, um cheiro, um sabor. Não me lembra a sensação de estar drogada, ou bêbada. Não é euforia, nem angústia. É no corpo inteiro e o corpo se transforma em nada. É novo demais e ao mesmo tempo parece ser a sensação mais remota e familiar. Há vezes que parece que vou agarrar o sentido, pois passa como frase escrita e é como se ao lê-la de relance, o resto pudesse vir todo, como um maremoto. Outras vezes é um acorde, uma introdução pequena, que não tenho força de transformar na sinfonia que é, e está escondida. Então me contento em brincar de tentar saber se está dentro ou fora de mim. Quase sempre sinto que está dentro e me possui, mas há vezes que parece estar fora e então é como se alguém, em algum lugar longínquo, escrevesse meu nome repetidas vezes ou é como se este alguém estivesse na mesma insônia, na mesma bolha de insônia que estou, e pudéssemos compartilhar nossas fatias de vida. Então, aí sim, quando me vem esta sensação rara de estar acompanhada nesta bolha é que me invade um quase gozo, um gozo que pressinto ser  maior do que tudo nessa vida, mas num átimo se desfaz o encantamento e logo o perco novamente e este  fluído  inatingível que adivinho ser azul me foge, se vai impiedoso, deslizando por entre os dedos, fazendo  os delicados fios que me mantém ligada a esta nuvem se romperem.  Neste exato instante volto ao começo, à busca inicial. É como um jogo que nunca tem fim.

     Apesar disto, sinto que estou avançando noite após noite, sinto que vou evoluindo neste cego tatear, nesta procura do que parece ser o insondável. Neste momento, nem sei ao certo se meus olhos estão abertos ou fechados. Não importa. Neste momento é tudo negro e silencioso neste quarto onde o tempo às vezes se faz estátua e a madrugada se torna minha. Neste exato momento, olho para o lado e me espanto, quando vejo que a meu lado, um homem dorme.

Fernando Corona - 2014 - PoA







sexta-feira, 15 de agosto de 2014

ASPIRINAS E PADRES



Foi agora mesmo, mastigando uma aspirina, que me lembrei, entre outras coisas, do Lexotan. “Com Lexotan os pensamentos passam, mas não doem”. Foi a frase que me veio à cabeça, dia destes, na janela.

Eu mastigo aspirinas talvez porque meu pai as mastigasse também. Eu o achava corajoso por fazer isto, mas pelo que minha mãe fala, tive um trauma quando um drops ficou entalado em minha garganta.

Talvez por isto, sempre tive esta dificuldade de engolir comprimidos. Minha avó queria que eu fizesse a primeira comunhão e eu já estava me preparando para isto, quando ouvi alguém dizer que a hóstia não se podia mastigar. Vi uma foto de umas crianças recebendo a hóstia de um padre e fiquei horrorizado com o tamanho que ela tinha. Como é que alguém pode engolir isto sem mastigar? Maior que um Cebion?!

Acabei não fazendo a comunhão, acho que por pressão do meu pai, que era ateu e achava bobagem. Minha irmã também não fez, apesar de estar entusiasmada e até ir no cursinho, mas teve uma discussão com o padre a respeito da existência do Diabo. Chegou em casa irritada com a questão e também deixou pra lá, e assim, acho que fomos nos criando meio ateuzinhos.

Meus filhos, e isto já faz muito tempo, chegaram da aula e estavam na sala numa conversalhada sobre Jesus. A mãe deles, atraída pelo papo, pergunta.

- Escutem aqui. Vocês sabem quem é Jesus?
- Claro, mãe. É o cozinheiro da creche!

Eles rezavam antes da aula, uma reza que agradecia a Jesus pelo alimento dado, e assim tiraram suas conclusões lógicas.

Isto tudo me fez lembrar de duas de padre. Aqui vai a primeira.

O padre calavera (este é um termo gaudério que designa aquele que é viciado em jogatina) foi mandado para uma cidadezinha do interior como punição. Fez, num domingo, seu primeiro sermão e depois disto foi caminhar pela praça para conhecer a cidade.

No meio do passeio, se aproxima um rapaz e se dirige a ele.

- Padre. Na quinta, 8 da noite vai ter um Poker ali no bar do Nito. Esperamos pelo Senhor.

O religioso ficou desconfiado daquilo, mas seguiu caminhando, quando outro cara se aproxima.

- Padre, padre...no sábado vai rolar uma canastrinha ali no Clube. Contamos com sua presença!

O padre ouviu aquilo e mudou a direção, achando tudo muito estranho. Logo em seguida se aproxima uma senhora gordota no maior entusiasmo.

- Padre! Amanhã vai ter uma roda de pife lá em casa. O Senhor não gostaria de participar?

O clérigo não se contém.

- Minha filha. Acabei de chegar na cidade. Não conheço nada nem ninguém. Por que vocês estão me fazendo tais convites?
- Ora, Padre! Estávamos todos no sermão e vimos que antes de distribuir as hóstias, o Senhor as embaralhou.

Pra fechar, aqui vai a segunda.

Chegou na paróquia um padre novo que tinha por hábito cobrar 1 real cada pecado. A pessoa se confessava e pagava ali mesmo. Um cara foi falar com o padre e disse ser um pecador inveterado e marcou hora no confessionário para o dia seguinte.

Chegou às 10 da manhã e começou a enfileirar suas barbaridades para o padre que foi marcando num caderno. Já passava do meio dia, quando o rapaz falou.

- Padre, acho que é isto. Não lembro de nenhum outro pecado. Acho que confessei todos.
- Sim, meu filho. Agora deixe-me conta-los. Puxa vida. Você pecou bastante.

O clérigo, concentrado, depois de alguns minutos, chegou ao fim de seu levantamento.

- Meu filho. São 149 pecados.

O pecador, conformado, tira da carteira 3 notas de 50 e entrega ao padre que responde.

- A igreja não tem troco, meu filho.
- Então vai tomar no cu, padre e ficamos assim.

                                                 Fernando Corona - RJ 2014



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A URGÊNCIA DE AGRADECER

Dia destes postei aqui uma das musiquinhas que andei cometendo ao longo destes anos (não paro de encher o saco dos colegas facebookianos) e um dos comentários veio de bem longe - do Vêneto, região que fica ao norte da Itália – e este comentário dizia apenas uma palavra: STRAORDINARIO.

Foi o que escreveu Vincenzo Titti Castrini, este sim, extraordinário acordeonista, com quem tive a oportunidade de dividir um pouco de música e existência durante uma noite quente de julho, na cidade de Peschiera, no ano de 2011.

O quarteto era composto também por Paolo Andriolo, baixista de Pádua e Otávio Garcia, baterista do Rio de Janeiro. Estávamos apresentando as músicas de um projeto muito simpático chamado “Villa Lobos in Jazz” e tocamos num bar ao ar livre, no meio de uma pracinha pitoresca, que tinha flor por todo lado. Já havíamos apreciado um fim de tarde suave, de cores pasteis, e acho que tínhamos todos a alma leve.

O comentário do Titti me fez lembrar também que, depois da tocata, antes da despedida, ficamos por ali bebendo um pouco, e ele sentado à mesa, pegou o instrumento e começou a cantarolar tradicionais cançonetas italianas.

Havia uns poucos amigos à volta, degustando sorridentes aquilo que era tão simples e bonito. Esta cena de pura celebração ficou marcada na minha memória e não sei por que me fez imaginar que, há muito tempo atrás, minha avó resolveu comprar um piano para minha mãe, que logo começou a estudar e assim meus primeiros anos de vida tiveram como trilha, Bach e tangos.

Depois de uma mudança, o piano foi parar no meu quarto, mas só fui me interessar por ele aos 15 anos , quando ao entrar na casa de um amigo, vi sua irmã (que se chama Magali e este é o mesmo nome de minha mãe) tocando Blue Moon.

Me aproximei e fiquei olhando aquilo. Parecia simples. Pedi a ela que me ensinasse, e foi aí que tudo começou.

Minha avó se chamava Maria Bonetti, era filha de colonos italianos que vieram da mesma região de Titti e Andriolo, o Vêneto.

Perdeu seu marido - que se chamava Gastão Villeroy - muito cedo, e carregou este luto até seu último dia. Talvez por isto tenha sido uma pessoa um tanto dura, e eu não tinha muita paciência com ela.

Mas lembrei-me dela esta semana e fiquei pensando que dá um pouco de pena que a gente leve 50 anos para entender certas coisas. Parece que nunca estamos preparados para entender. Tenho descoberto que as pessoas fazem o melhor que elas podem e isto tem modificado um pouco a forma de como vejo a vida.

Minha avó deu um piano para minha mãe, e por isto ter acontecido, pude aprender naturalmente a tocar o instrumento, e assim tive a possibilidade de viajar e assistir, embriagado de cerveja e emoção, a Titti cantarolando lindamente numa mesa de um bar de uma praça de uma cidadezinha italiana na qual meu tataravô pode até ter vivido.

Eu andava com um medo danado me assaltando, que era o de morrer me sentindo um babaca prepotente, mas parece que estou tendo a chance de ir me reconciliando aos poucos com a vida. A gente vai aprendendo que é urgente agradecer. Então, desta vez, agradeço a ti, vó. Um beijo.

Fernando Corona - rj -2014




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

SOMBRINHA VERMELHA

          Nagô acompanhou com o olhar as mucamas deixando a praia rumo à Casa Grande. Tiveram de ir acudir à Sinhá Flora que havia começado com as dores antes do tempo. Todos esperavam a cria pra janeiro, mas talvez o calor demasiado estivesse precipitando todas as coisas. Tinham vindo avisar que ela gritava palavras feias e gritava muito. As negras sabiam que podiam deixar Sinhá Pequena sozinha com Nagô que era escravo de confiança, então por isto se foram sem preocupação. Nagô era nego bom. Nem precisava feitor por perto. Desde miúdo tinha por tarefa entreter Sinhá Pequena que era pouquinha coisa mais nova. E fazia isto muito bem. Até parecia nego educado, Nagô!

          Quando as pretas sumiram atrás dos cômoros, Nagô olhou para Sinhá Pequena, sentada na cadeira de palhinha. Toda de branco, com aquela sombrinha vermelha cortando o céu de dezembro era uma boniteza só. Uma boniteza que doía. Ao fundo da praia deserta, atrás de Sinhá e a sombrinha, Nagô podia ver o infinito do norte e quantas vezes imaginou roubar cavalos e levar Sinhá pra lá com ele. Se galopassem pelas ondas não deixariam rastro. Poderiam ganhar algumas horas até que os patrões descobrissem a fuga, e então se meteriam pelo mato adentro e caminhariam até que achassem o outro mar de que tinha ouvido falar.

          Sinhá Pequena estava olhando para ele também, este rosto suado e sereno. Sinhá gostava daquele cheiro de capim que ele tinha desde a infância, quando ficavam de retoço pelos jardins da quinta. E aquela pele suave e tão negra era o motivo de tantas noites intermináveis e febris. Ao fundo da praia deserta, atrás de Nagô, ela podia ver o infinito do sul, que sempre pensava que se tivessem bons cavalos, poderiam galopar em direção às terras mais frias, lá onde não tem gente, lá onde uma branca e um negro podem se amar até que Deus desista.

Agora olhavam para o mar revolto e encrespado.

- Hoje o mar está feio.
- Nunca vi tão feio, Dona.
- Não me chama assim. Não tem ninguém perto.
 

          Nagô, sem tirar os olhos do mar e como se não tivesse prestado atenção ao que ela dissera murmurou;
 

- Até parece castigo de Deus.
 

          Sinhá Pequena suspirou e iniciou a frase que ele já sabia que viria, pois já tinha lido nos olhos e nas ancas dela.
- Nagô. To esperando um filho teu.
          Neste momento, uma onda avançou um pouco mais, chegando até eles e isto fez Nagô sair do transe e balbuciar.
- Olha. A água tá molhando teus pés.
Sinhá, ainda com olhos fixos no mar, despejou as palavras lentamente.
- Se passarmos aquela primeira onda, o repuxo nos leva lá pra dentro. Podemos ir abraçados. Vai ser rápido. Não vamos sofrer nadinha e Nossa Senhora vai nos acolher. Se vais morrer, quero morrer contigo.

          Sinhá não ouviu resposta. Viu Nagô correndo e desaparecendo atrás dos cômoros. Sinhá sorriu. O mar, talvez o mar... mas só depois, se carecer. Nagô vinha trazendo os cavalos que reverberavam naquela soleira. Tomaram a direção sul e galoparam pela água sem trocar palavra. A sombrinha ficou jogada na areia. O vento nordeste, como sempre, chegou no final da manhã, e a foi expulsando da praia até que ficasse presa em meio a juncos e cactos.

          Marguerite estava sentada num pequeno café, olhando atentamente através das grandes janelas. Era um dezembro gelado. O dia havia começado ensolarado, mas a previsão do tempo avisara que choveria forte na parte da tarde. Marguerite esperava pela chuva anunciada, pois nos sonhos recorrentes que estava tendo nas últimos noites, ela era encontrada por alguém em meio à multidão, e era localizada por portar uma sombrinha vermelha. Não tinha sido tarefa fácil encontrar a sombrinha nas lojas do ramo, pois vermelho não estava na moda e Marguerite andou toda Champs Elysees até lograr seu intento num brechó requintado. Pagou a pequena fortuna de oitenta euros, mas a sombrinha tinha exatamente o tom vermelho vivo que possuía no sonho, e isto a deixou satisfeita com a compra.

          Nestes sonhos, de quase todas as noites das últimas semanas, as imagens sempre se dissolviam no exato momento em que ela desvendaria o rosto de quem se aproximava. Ela sabia que era um homem, sabia também que havia uma alegria familiar neste encontro, mas o rosto lhe era impossível ver. E agora são quatro da tarde e logo vai começar a escurecer e a chuva é necessária para que ela possa sair com a sombrinha no meio do povo e caminhar pela Montaigne tanto quanto for necessário, como havia acontecido na tarde anterior, até que se vá a luz do dia ou até o momento de parar e entrar exausta em qualquer bar para tomar café, fôlego e coragem para chamar um táxi e voltar para casa.

          Finalmente, lá fora as pessoas começaram a abrir seus guarda chuvas e sombrinhas negras em sua maioria, e Marguerite sorveu o último gole do chá que já estava morno e tomou o rumo da porta que se abriu sozinha com a força do vento frio. Com a sombrinha em punho, ganhou a Montaigne, se misturando a uma gente ansiosa que apressadamente ia deixando seus escritórios sob trovões, gotas que iam se tornando mais robustas e lufadas que espanavam papeis e faziam as placas de rua rugirem. As nuvens deslizavam e eram de chumbo e a paisagem que se formava era uma espécie de doce caos, era a chuva que ela esperava, eram as cores que ela queria ver e tudo isto lhe deu a impressão de que todos que ali caminhavam, estariam indo para seus encontros sonhados, e ela procurou ver nas fisionomias dos passantes algum traço que denunciasse isto, mas já estava se tornando impossível enxergar a meio metro de distância, pois a enxurrada e o vento já dificultavam a simples locomoção e Marguerite viu o trânsito parado, os carros estáticos, com luzes acesas, as pessoas frenéticas procurando marquises que já não protegiam, gente que ia ao solo por resvalar na corrente que se formava ou por serem empurradas pela ventania ou por homens mais robustos que deixavam cair seus guarda chuvas deformados na calçada e então ela já sabia que não poderia voltar atrás, para a segurança do café, pois a torrente que descia em direção ao rio lhe impossibilitaria a tentativa, e a solução seria encostar-se à parede, e avançar pela avenida que ia sendo tomada rapidamente pela água, é preciso avançar um pouco mais que seja, e quando a sombrinha vermelha vergou como um brinquedo de papel, Marguerite foi empurrada por uma mulher gorda que gritava ensandecida, sendo arremessada de encontro a uma porta que se abriu com o peso de seu corpo e que com extremo esforço, já do lado de dentro, ela conseguiu fechar e pode ver pelos vidros o desespero dos que estavam lá fora, se debatendo, lutando contra as águas que vinham de todas as direções.

          Marguerite, encharcada e paralisada, assistindo ao manicômio que havia se transformado a Avenida Montaigne, exclamou quase gritando:
- Que tempo horroroso!
- Nunca vi tão feio, Dona...
          Numa vertigem, Marguerite se voltou e viu o rapaz, em frente a um balcão, olhando fixamente para ela com um sorriso límpido. Ele completou a frase.
- Até parece castigo de Deus.
          À sua volta, havia muitas prateleiras com livros antigos e carcomidos, mas em vez do típico cheiro de mofo e papel velho ela sentiu uma estranha maresia no ar.
- Olha. A água tá molhando teus pés.
 

          Marguerite viu a água que, invadindo o sebo, passava por cima de suas botas e reparou também que sua sombrinha estava escangalhada. Neste momento compreendeu tudo o que estava acontecendo. Deixou a sombrinha cair ao solo, pois já não precisaria mais dela, e se aproximou do homem que não desfazia o sorriso. Colou o corpo ao dele ternamente, e assim,  os dois  abraçados, puderam ver a sombrinha vermelha sendo levada pela água em direção aos fundos da loja. Por entre as varetas retorcidas havia pedaços de junco. Junco e cactos.

Fernando Corona - RJ, 2013




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